IMPRENSA, GOVERNO E INTERNET: A GUERRA DE RESISTÊNCIA DO JORNALISMO NO BRASIL
- Grupo 2
- 2 de nov. de 2020
- 14 min de leitura
O registro de ataques a jornalistas tem aumentado consideravelmente desde o início do atual governo. Os relatos apontam que esses profissionais são atacados moral e fisicamente, principalmente em áreas de cobertura de manifestações políticas. Geralmente, as agressões ocorrem por parte de seguidores de Jair Bolsonaro, também envolvido em casos de ofensas a jornalistas.
A evolução dos meios de comunicação revolucionou as formas como se dão as relações entre emissor e interlocutor. O canal passou a ser de mão dupla, principalmente por conta do poder da internet e das ferramentas digitais, que facilitaram a abertura de um espaço onde qualquer pessoa pode expor suas opiniões. No entanto, a criação de conteúdos de maneira demasiada no ciberespaço põe em xeque a credibilidade de tudo o que circula pela rede, principalmente no que diz respeito ao fato jornalístico.
Nesse contexto, o jornalista, que inegavelmente possui papel fundamental no desenvolvimento da opinião pública e da informação das massas, acaba tendo sua função banalizada por conta das diversas fontes de conteúdo não credenciadas que circulam nas redes, e que muitas vezes fogem da verdade. E são justamente as falácias que correm como notícia, ou seja, mentiras disfarçadas de fato, que acabam por drenar a credibilidade, antes tida como característica intrínseca, do ato jornalístico. Afinal, se não se sabe mais no que e em quem confiar, o bom jornalismo perde valor e espaço.
A participação de indivíduos de diversas esferas sociais na criação de conteúdos, sejam eles culturais ou factuais, ficou ainda mais favorável em 2009, com uma medida do STF . De acordo com a ação, o diploma de jornalismo não é mais um pré-requisito para o exercício da profissão, e tal fato divide opiniões até hoje. Há quem defenda a democratização do jornalismo, visto que inúmeros profissionais já exerciam a profissão, ainda que limitados por conta da falta da diplomação. Outros, principalmente órgãos da imprensa tradicional, alegam que tal decisão “mancha” a imagem do jornalista, justamente por questões relacionadas à credibilidade dos fatos.
Dessa forma, ainda que a não obrigatoriedade do diploma tenha trazido diversos benefícios para a sociedade, principalmente por favorecer mídias locais independentes, é factível que tal medida também tenha o lado negativo. Afinal, a crescente de falsas notícias publicadas como algo legítimo é a prova viva de que o jornalismo enquanto atividade foi, sim, banalizado.
O desfio do jornalista em governos conturbados
O ano de 2020 estabeleceu transformações expressivas na comunicação, e consequentemente, no trabalho do jornalista, principalmente por conta da pandemia provocada pelo coronavírus. Isso se deu pela forma como alguns fatos passaram a ser apurados, uma vez que o acesso a certos lugares ficou restrito e o contato físico entre pessoas também. No entanto, o início da pandemia pôs o jornalista brasileiro numa condição ainda mais complicada quando se trata da relação com o governo do atual presidente, Jair Bolsonaro.
Negando fatos científicos e confrontando diversos profissionais de comunicação, Bolsonaro esteve inserido em diversas polêmicas envolvendo ataques a jornalistas em ofício. O ato do presidente incentiva uma aversão ao jornalismo, principalmente por parte daqueles que compõem a ala bolsonarista . A prova cabal pôde ser observada quando, em maio deste ano, o Grupo Globo e a Folha de São Paulo se viram obrigados a suspender coberturas locais em frente ao Palácio da Alvorada , residência do Presidente da República. Apesar de o jornalismo enquanto profissão não ser considerado de risco, como informa a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), tal medida foi tomada para preservar a integridade dos jornalistas que estavam sofrendo ataques constantes, física e moralmente, por parte de manifestantes favoráveis ao atual governo.
Segundo a FENAJ, a onda de violência contra jornalistas vem crescendo exponencialmente desde 2018, início do mandato do atual presidente, quando 135 casos foram contabilizados. Já em 2019, a pesquisa indica 208 casos, sendo que 58,17% dos casos partiram do próprio Jair Bolsonaro.
Em março de 2020, a jornalista Patrícia Campos Mello entrou na justiça contra Bolsonaro, Hans River do Rio Nascimento, ex-funcionário de uma agência de disparos em massa, e Allan dos Santos, apresentador do canal online Terça Livre, com uma ação pedindo indenização por ofensas de cunho sexual proferidas contra ela. E mesmo após essa ação, Patrícia foi atacada novamente, dessa vez por Eduardo Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro, o que acabou por abrir espaço para que diversos comentários ofensivos fossem disseminados nas redes sociais da jornalista.
Além disso, mesmo durante a pandemia tornou-se comum o registro de repórteres interrompidos, atacados e até agredidos enquanto exerciam funções nas ruas.

A VOZ DA MULHER: COMO OS ATAQUES AFETAM O TRABALHO FEMININO
Ainda de acordo com os dados da FENAJ, 21,67% dos casos de ataques a jornalistas foram direcionados a profissionais do sexo feminino. Esses números, associados ao caso de Patrícia, levantam a questão do papel e da segurança da mulher tanto no jornalismo quanto na esfera política. Para a jornalista Luciane Chame, que também é Mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o risco sempre esteve presente na profissão de jornalismo, mas nos dias de hoje os “inimigos” ganharam novas formas. “Antes, a ameaça estava nos capangas de políticos, traficantes, criminosos tradicionais. Hoje, no Brasil pelo menos, o jornalista pode ser atacado em qualquer esquina, real e virtual, pelo cidadão comum”, lamenta Luciane. A jornalista ainda complementa: “O bem mais precioso do jornalista é sua credibilidade. Uma vez que essa seja tomada dele de forma criminosa, com Fake News, difamação e desinformação, essa é uma das maiores violências às quais o profissional pode ser submetido. Sem falar da violência física e psicológica. O discurso de ódio foi definitivamente legitimado.”
Sobre o papel da mulher dentro do jornalismo, Luciane enfatiza o machismo estrutural dentro das esferas da profissão: “Mulher que pensa incomoda. Mulher no comando incomoda mais ainda. Posso te dizer isso de ‘cadeira’. Vi e vivi isso na pele. E o machismo estrutural é tão forte que, mesmo quando os cursos de jornalismo levavam ao mercado uma maioria de mulheres, a representação delas nos cargos de comando ainda era muito baixa.”
Do outro lado dessa discussão está o poder político, que frequentemente é colocado como opositor da Imprensa. Mesmo com dados que comprovam o alto percentual de ataques provenientes de representantes do governo, existe uma outra personagem que precisa ser ouvida: a mulher na esfera política.
A psicanalista e pedagoga Keli Arruda foi candidata a vereadora nas eleições de 2016, e define a vida da mulher na política como uma constante luta e superação. “Geralmente as mulheres são vistas, na política, como completadoras de cotas”, diz Keli, e complementa: “Na realidade, o que pensam, falam ou fazem com a mulher não deve, de fato, determinar quem ela é e onde pode chegar. Mas quem a mulher se sente na sociedade? Todos sabem e falam da importância da mulher na sociedade. Somos mais de 50% da população eleitoral no Brasil e a mulher ainda não se deu conta disso”.
Sobre a questão do descrédito do jornalismo, Keli, que também é escritora e apresentadora de um programa de rádio, menciona o sensacionalismo e o posicionamento tendencioso por parte de alguns veículos de imprensa. “Exploram-se as dores das pessoas e suas angústias. (...) Raramente, se veicula uma notícia gerando uma reflexão. Em grande parte das vezes a notícia é apresentada já com um juízo de valor ou como a contextualização de algum valor social que se quer implantar”, argumenta.
No meio de todo esse debate, nos deparamos com uma questão que precisa ser devidamente discutida: a saúde mental de quem sofre ataques. Como terapeuta especializada na saúde mental da mulher, Keli Arruda aconselha: “A primeira forma de proteção é a interna. Uma blindagem interna. Principalmente porque, na maioria das vezes, os ataques são imprevisíveis. Não se tem como prever todas as reações internas que virão quando um bombardeio à pessoa, ou ao seu trabalho, ocorrer. É preciso, portanto, ter a certeza de quem realmente é e de qual lugar ocupa no mundo, bem como da realidade e da importância do seu trabalho. Porém, isso não impedirá que os reveses ocorram. Vez ou outra ocorrerão. Uma outra forma de proteção é prática e mais objetiva: conhecer seus direitos e tomar posse deles, sem vitimismo excessivo. Ser vítima é, na maior parte das vezes, inevitável, mas viver como vítima é opcional.”
Confira abaixo a entrevista realizada via e-mail com a jornalista Luciane Chame na íntegra:

Como o jornalista é enxergado pela massa nos dias de hoje?
Bom, tudo que vemos e representamos faz parte da nossa Cultura construída. A mesma Cultura simbólica que criou a ideia idílica do jornalista destemido, perfeito, acima de qualquer suspeita, um verdadeiro super-homem (sabe de quem eu falo, não?) é a que hoje se volta contra ele, com toda desconfiança. Ambas opostas e irreais.
O poder instituído sempre buscou manipular a Imprensa (e o Jornalismo) e os jornalistas têm sua parcela de responsabilidade e de vitimização. Houve e ainda há aqueles que não renunciaram aos seus ideais e muitos perderam a vida por isso. No mínimo, esses buscaram sair da chamada Grande Mídia para tentar dar voz à realidade que entendem mais justa, migrando para a chamada mídia alternativa (termo que hoje faz menos sentido com a pulverização das fontes de informação na internet, embora ainda haja claro poder centralizador – só que agora, o poder está com as plataformas de informação, que ditam as regras do que será visto. Mas o dinheiro continua no comando de tudo).
Mas é preciso sobreviver, claro, pagar suas contas, sustentar suas famílias. Então, a grande maioria dos jornalistas, acaba por se submeter aos interesses dos donos dos veículos (políticos e grandes empresários) e paga um preço alto por isso.
Não tenho um estudo minucioso do papel do jornalista no mundo, mas a onda de governos populistas de direita trouxe com ela sérios ataques à imprensa, como forma de descredibilizar discursos dissonantes e deslocar o eixo do “poder de informar sobre a realidade”. Como sempre, sofre quem está na base, no “campo de batalha”, como se diz. Isso é muito sério porque desloca a manifestação política do debate para a violência clara (e socialmente aceita!) contra o profissional de jornalismo.
A profissão de jornalismo sempre foi uma profissão de risco, porque há sempre alguém que não deseja que informações sejam reveladas. Antes, a ameaça estava nos capangas de políticos, traficantes, criminosos tradicionais... Hoje, no Brasil pelo menos, o jornalista pode ser atacado em qualquer esquina (real e virtual), pelo cidadão comum, pelo “cidadão de bem” e “tá tudo bem”, como se diz. Vale o mesmo para os ataques cibernéticos. O bem mais precioso do jornalista é sua credibilidade. Uma vez que essa seja tomada dele de forma criminosa, com fake News, difamação e desinformação, essa é uma das maiores violências às quais o profissional pode ser submetido. Sem falar da violência física e psicológica. O discurso de ódio foi definitivamente legitimado.
O jornalismo vem sendo colocado em descrédito?
Sim, sem dúvida. Essa é praxe dos governos populistas, que se erguem hoje no Brasil, EUA e parte da Europa: descredibilizar a Imprensa para fugir do crivo da apuração e da discordância. Existe uma direita emergente que ataca se aproveitando das fragilidades e contradições da própria Imprensa e do Jornalismo: afinal, como se se diz popularmente, quem criou a cobra que hoje o envenena?
Pensando no Brasil, quem apoiou o golpe recente contra uma presidente eleita? Quem abriu caminho e deu musculatura para o surgimento do atual governo? Quem batalhou pelo fim da exigência do diploma de Jornalismo, banalizando a formação ética e profissional? Sim, os políticos e empresários donos dos meios de comunicação que hoje sofrem os ataques. Mas quem sofre os efeitos, de fato, desse descrédito é o peão desse tabuleiro de embate de poder, o jornalista, e a população, que fica cada dia mais vulnerável à desinformação.
O primeiro movimento dessa nova direita é se dissociar da ideia da “política tradicional”, se posicionando como anti-establishment, buscando deslegitimar as instituições e se apresentando como algo novo – embora mantendo as mesmas relações de poder, as mesmas bases e o mesmo modus operandis. Atacam a “corrupção” e as “mentiras” da mídia. Nessa falácia de ruptura com os poderes tradicionais surgem os ataques à imprensa, que sempre se posicionou como o “Quarto Poder”.
Em outro ponto dessa rede está a pulverização da produção de informação pela internet e a utilização das redes sociais. Os novos canais de comunicação fizeram um trabalho que a mídia tradicional não conseguiu – e não se interessou por fazer: dar voz a diferentes públicos. Trazer a diversidade e a pluralidade para dentro da “conversa”, para o cenário midiático. As redes sociais e os canais da internet passaram a falar com e a dar voz aos outsiders. O mesmo movimento que empodera a Mídia Ninja empodera os youtubers de extrema direita.
A nova direita cresceu porque percebeu esse potencial e se misturou às redes, usando bots e influencers para disseminar os discursos de ódio e ainda destruir a credibilidade da imprensa. As fake news ganharam uma velocidade absurda, dada a nova forma de consumo de conteúdo e das estratégias de manipulação que usam o próprio algoritmo a seu favor. A esquerda e a Imprensa tradicional demoraram mais tempo para perceber isso. Assim, os novos “formadores de opinião” anti-imprensa pavimentaram seus próprios canais de informação com a população, driblando o filtro jornalístico de apuração da veracidade dos fatos. Assim nascem os “kit-gays” e outras coisas piores.
O que me pergunto é: será que teria sido tão fácil desacreditar a imprensa se essa não tivesse construído uma história secular de dependência dos poderes econômicos e políticos instituídos? Será que podemos construir uma nova história daqui para adiante? Com um olhar otimista, tendo a refletir se não será um momento de auto-reflexão importante para os jornalistas e produtores de conteúdo informativo. Lições aprendidas: trazer mais a pluralidade, minorias e as diferentes vozes, antes esquecidas, para o centro dos debates.
A mulher no jornalismo: existe discriminação de gênero nas redações?
Muita. Não só nas redações como em qualquer espaço de atuação do Jornalismo. Em qualquer espaço de atuação intelectual, na verdade. Mulher que pensa incomoda. Mulher no comando incomoda mais ainda. Posso te dizer isso de “cadeira”. Vi e vivi isso na pele. E o machismo estrutural é tão forte que, mesmo quando os cursos de jornalismo levavam ao mercado uma maioria de mulheres, a representação delas nos cargos de comando ainda era muito baixa. Principalmente nas redações. A ideia de um jornalista disponível 24h por dia, 7 dias por semana, não combina com os vários papéis da mulher na sociedade. Conheci mulheres que eram tomadas como autoritárias. Já os editores com o mesmo perfil eram chamados de profissionais “objetivos” de “personalidade forte”. Mudamos muito pouco esse cenário desde então. Mas nessa pouca evolução que tivemos, a internet teve e continua tendo um papel central, dada a possibilidade de novos canais e do home-office (inclusive para os homens, pais, também poderem cumprir o seu papel, desobrigando a mulher a todas as responsabilidades da casa e da família).
Qual seria a melhor forma de relação entre mídia e governo para que a opinião pública sobre ambos fosse mais acertada e menos prejudicial para todas as partes?
A melhor relação seria a completa independência entre eles, com ambos sob o crivo de uma sociedade crítica e com acesso à Educação. O que não é possível da forma que o mundo se constitui hoje. Talvez nunca seja. Enquanto isso não acontece, estou do lado dos que acreditam na necessidade de uma regulação da mídia por parte da sociedade. E isso inclui o governo. Como isso vai se dar, na prática, é um debate longo, plural, mas muito necessário.
A democracia está em risco real?
Sempre. Manter o Estado Democrático é uma luta diária. Porque sempre haverá grupos que farão de tudo para se estabelecer e se perpetuar no poder. A qualquer momento direitos conquistados podem ser suprimidos – basta pensar que até hoje, desde a última Constituição, de 1988, o Estado não conseguiu garantir plenamente direitos básicos aos brasileiros, como à moradia, à saúde, à segurança. Mas, se a pergunta é se estamos, neste momento, sob uma ameaça maior, acredito que sim. Não só pela ascensão de governos autoritários, mas pelos métodos pelos quais esses subiram ao poder. Os movimentos que hoje flertam com o poderio militar e o fascismo descobriram como naturalizar discursos de ódio e destruir o conceito de Política (o conceito original, que não se resume à política partidária, mas se expande ao campo do debate e da transformação ao qual todos estamos envolvidos). Os ataques à imprensa vão a reboque nesse movimento, “jogando” a massa para buscar informações no Facebook e no WhatsApp. Isso é uma estratégia bem eficaz: eu não preciso te convencer, basta convencer quem tem poder sobre você (seu padre, seu pastor, sua família) e que vai fazer com que a minha mensagem chegue até você sob forma de conselho, com familiaridade.
Isso é assustador. Porque a multiplicidade dos canais de informação contaminados com notícias falsas estrategicamente plantadas, a todo momento, aumenta essa ameaça. Os governos autoritários aprenderam a usar as redes para separar as pessoas em “bolhas de informação”, aproveitando-se da necessidade humana do viés de confirmação (encontrar discursos que confirmem o que pensamos) e de uma “segurança de identidade”, em um mundo de tantas referências.
Confira abaixo a entrevista realizada via e-mail com a psicanalista Keli Arruda na íntegra:

Quais seriam os maiores “vilões” da credibilidade de um jornalista hoje?
Penso em duas questões específicas: o sensacionalismo, da parte de alguns, que denominam isso de jornalismo informativo, sem qualquer preocupação com a boa ética ou a preservação do humano. Exploram-se as dores das pessoas e suas angústias. O posicionamento tendencioso também é, a meu ver, um desvalorizador. Raramente, se veicula uma notícia gerando uma reflexão. Em grande parte das vezes a notícia é apresentada já com um juízo de valor ou como a contextualização de algum valor social que se quer implantar.
Quando uma jornalista do sexo feminino sofre ataque por alguma figura pública, a repercussão é diferente de como seria com um jornalista do sexo masculino?
Sim. Tanto os ataques são diferentes quanto a repercussão. Mais ofensivos os ataques e menos discutidos os casos, no geral, obviamente. Mas, talvez, porque a mulher tomou para si a capacidade de abstrair situações doloridas para “sobreviver”, quando lançada aos leões. Isso acontece com o assédio moral no trabalho, na violência doméstica e em grande parte dos casos de violência sexual.
Esta abstração, embora faça parte do “kit de sobrevivência na selva social” também ocorre porque, muitas vezes, a mulher se impõe dar conta de tudo, se impõe a não dependência total de alguém. Vale dizer que não dependência é diferente de independência. Independência é uma conquista, que deixa claro o empoderamento latente da mulher. A não dependência, em algumas situações, pode ser fruto de orgulho ou da busca de um empoderamento de fora para dentro, de algo que ela já possui e que não se dá conta, porque está esperando algo sobrenatural acontecer...
E como isso tudo afeta a saúde mental e emocional das profissionais que estão na linha de frente da comunicação?
As emoções comandam a nossa vida. Somos feitos de emoções. Emoções são reações internas às situações que vivenciamos. Portanto, qualquer coisa que agrida e cause frustração e angústia, seja lá por qual motivo, desestabiliza o emocional. Situações assim são capazes de provocar resultados seríssimos em todas as áreas da vida, como depressão, ansiedade, fobias, transtorno do pânico, estresse, Síndrome de Burnout, além de patologias físicas como gastrite, enxaquecas crônicas, problemas na coluna, infartos, paralisias, problemas na pele, etc... Enfim, tudo isso transtorna a vida de forma profunda, podendo causar a disfuncionalidade social e em todos os outros setores da vida. A profissional pode tornar-se, emocionalmente, inábil para o desempenho da sua função.
Como mulheres jornalistas podem se proteger do ódio virtual e da descrença em seu trabalho?
A primeira forma de proteção é a interna. Uma blindagem interna. Principalmente porque, na maioria das vezes, os ataques são imprevisíveis. Não se tem como prever todas as reações internas que virão quando um bombardeio à pessoa, ou ao seu trabalho, ocorrer. É preciso, portanto, ter a certeza de quem realmente é e de qual lugar ocupa no mundo, bem como da realidade e da importância do seu trabalho. Porém, isso não impedirá que os reveses ocorram. Vez ou outra ocorrerão. Uma outra forma de proteção é prática e mais objetiva: conhecer seus direitos e tomar posse deles, sem vitimismo excessivo. Ser vítima é, na maior parte das vezes, inevitável, mas viver como vítima é opcional.
Grande parte dos ataques ao jornalismo vem da esfera política, que em sua maioria é dominada por homens. E como é a vida de uma mulher nesse meio?
É uma vida de luta e superação. Geralmente as mulheres são vistas, na política, como completadoras de cotas. O interessante é que são vistas porque se veem. O posicionamento pessoal interfere, diretamente, na forma como a mulher lida no meio político. Quando ela se vê, apenas, como um complemento será tratada desta forma. Na realidade, o que pensam, falam ou fazem com a mulher não deve, de fato, determinar quem ela é e onde pode chegar. Mas quem a mulher se sente na sociedade? Todos sabem e falam da importância da mulher na sociedade. Somos mais de 50% da população eleitoral no Brasil e a mulher ainda não se deu conta disso. É como se precisasse, ainda, internalizar essa possibilidade de vencer a cultura, que é algo muito pessoal e internalizado, desde a infância.
Qual seria a melhor forma de relação entre mídia e governo para que a opinião pública sobre ambos fosse mais acertada e menos prejudicial para todas as partes?
A formação educacional é algo imprescindível. Educação não existe somente na escola, ela começa na vida. Necessário criar, de alguma forma, um mecanismo que eduque a inteligência ética das pessoas. Da sociedade, de forma geral. Tanto o jornalismo quanto o governo não são um mundo paralelo, não são uma sociedade à parte, ou pelo menos não deveriam ser.
A democracia está em risco real?
A sociedade inteira está. A briga pela democracia já é um contraponto a ela. Ela de fato é real? Acontece nas famílias? Nas escolas? Nas instituições religiosas? A democracia acontece dentro da gente?
Se não conseguimos lidar com as diferentes versões de nós mesmos, como lidaremos com isso na sociedade?
Por: Liana Abreu, Luiz Fernando Mendonça, Natalia Benites, Nathan Freire e Sanches Luiz




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