Cultura do Cancelamento: O tribunal da Internet
- Grupo 3
- 9 de nov. de 2020
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Enquanto a justiça se divide entre o que é certo ou errado, um novo termo entra em questão.
Anular. Tornar sem efeito. Essa poderia ser normalmente a definição de “cancelamento”, no entanto, no contexto atual o termo tem se referido, principalmente no mundo virtual, ao ato de promover um movimento em prol da invalidação de uma pessoa ou instituição que fez algo considerado socialmente inaceitável.
A chamada cultura do cancelamento diz respeito à prática de atacar reputações, em especial de pessoas relevantes de alguma forma para a criação de opiniões de um grupo de pessoas. É geralmente representada por atitudes dentro de uma comunidade que podem provocar a interrupção, momentânea ou não, de artistas, políticos, influenciadores digitais ou qualquer outra figura pública, como resposta a algum tipo de postura tomada por este que seria considerada ofensiva, preconceituosa ou condenável pela sociedade.
Por volta de 2017, a expressão "cancelamento" apareceu como uma maneira de caracterizar um determinado grupo que cometeu algum tipo de agressão na internet ou fora, podendo ser pessoas desconhecidas ou famosas.
O movimento #MeToo, no qual as mulheres protagonizaram uma gigantesca denúncia global contra casos de assédio e até estupro, dos quais muitos homens, haviam saído impunes. Mas a partir daí o jogo virou, formou-se uma grande rede de apoio a favor das vítimas, muitos criminosos foram punidos, e uma grande conscientização contra má-conduta sexual tomou conta da internet.
Passado o tempo, o estilo desse movimento tem se modificado. Agora não é somente um crime que causa o cancelamento, e sim, uma palavra ou gesto que causa preconceito, uma ênfase diferente em determinadas questões, ou até mesmo a omissão em casos de injustiça ao clamor público social, tudo isso pode fazer com que alguém seja cancelado.
Há, também, pessoas que entendem que essa nova onda de ''cultura" não deixa impune indivíduos que, em tese, são privilegiados dentro da comunidade em que vivem, porque, através dela, grupos minoritários conseguem tornar evidentes casos de desrespeito à sociedade que esses "protegidos" provocam, usando essa nova ferramenta como meio para realizar denúncias.
Ocorrem diferentes processos de cancelamento em relação à vida de determinadas pessoas, muitos após pedirem desculpas obtêm o perdão da sociedade enquanto outros são acusados e caçados pelos erros por toda a vida.
Essa cultura buscou inicialmente o objetivo de fazer com que o cancelado entendesse que, no atual momento de um mundo interligado pela internet e com difusão de informações constantes, frente a muitas pautas de diversidade e minorias sendo levantadas e expostas na internet, algumas atitudes são inaceitáveis e não devem ser propagadas.
Por outro lado, fez com que certos indivíduos utilizem da cultura do cancelamento para atacar outras pessoas, por motivos adversos, sem embasamento, ou até mesmo por motivos fúteis. A internet, como um meio de globalização, permitiu dar voz a tudo e a todos, dando assim, origem também aos "haters", que criticam seus alvos simplesmente por não compartilhar dos mesmos gostos e opiniões que têm para si.
O sentido da invenção dessa cultura não está sendo levado à prática, já que consiste em questões relacionadas à sociedade, ou seja, uma pessoa era cancelada quando feria a moral e a ética de uma comunidade. Agora, no caso de opiniões divergentes, diferentes bolhas sociais nas quais somente uma determinada opinião é aceita, e o anonimato nos perfis das redes sociais, fazem com que a sensação de impunidade prevaleça e os usuários se sintam no direito de atacar de forma gratuita, sem se preocupar com consequências.
Para José Maurício Domingues, professor e pesquisador no IESP da UERJ, doutor em Sociologia pela London School of Economics and Political Science, essa cultura se trata de uma reprodução da maneira de "discutir" na internet, altamente imediatista, conjugada a duas outras coisas: intolerância em face de divergências e uma grande pobreza de argumentos.
Observa ainda que o anonimato é um fator que colabora para essa cultura que está cada vez mais ativa, assim como o fato de não se estar em presença direta do interlocutor. Além disso, atenta que nem sempre aquilo que o “cancelador” impõe virtualmente é o que pratica no cotidiano.
“Existe muita insegurança exatamente porque é mais difícil ter certezas, o que tem, paradoxalmente, as pessoas a se refugiarem em identidades e verdades superficiais, mas que permitem um pseudo-conforto moral e existencial. Obviamente, oportunismos de várias naturezas se combinam muitas vezes com isso”, afirma.
O que acontece é que a cultura do cancelamento foi perdendo o senso de proporção, muito por conta do ímpeto de uma parcela dos usuários nas redes sociais por um julgamento rápido. Se antes cancelavam diretores de Hollywood acusados de abuso sexual, hoje se cancela alguém que usa, por exemplo, um termo deturpado para se referir a algum tema do universo LGBTQI+.
Com toda certeza é importante responsabilizar um determinado grupo de cidadãos por falas racistas, machistas, entre outras. O cancelamento de certa maneira deve atuar na transformação no processo de comportamento das pessoas, porém, ele está sendo posto como se fosse o propósito final.
Em meio a essa deturpação do propósito deste movimento, ou cultura, é que surge uma espécie de cancelamento por erro de conduta, ou seja, derivado de uma atitude reprovável em meio a uma conduta rotineiramente correta. Esse padrão se explicita cada vez mais nos últimos anos, por exemplo, em períodos nos quais são exibidos programas como reality shows.

Integrantes de A Fazenda 12. Reality show teve sua estreia em 8 de setembro. (Foto: Record TV)
Esses representam oportunidade, para que o público, em especial a parcela acostumada com o patrulhamento da cultura do cancelamento na internet, possa se ver com maior controle de participar de um grande espetáculo de julgamento coletivo. Assim se produz um senso de comunidade, a mesma proporção que alimenta narrativas de rivalidades girando em torno de um objetivo comum.
Se nota ainda mais esse tipo de atitude, em geral nas redes sociais, em programas do tipo e que ainda incluem o direito do voto popular. Através disso, ocorrem noites de eliminação de grande impacto nacional. Esse estilo de eliminação dos participantes acaba por se tornar uma espécie de julgamento em que grupos mobilizam naquele instante, por muitas vezes, mutirões de pessoas para que seu participante preferido fique. Em grande maioria, nas redes sociais, o participante “rival” é atacado de diversas formas, denegrindo sua imagem. O convívio com personalidades distintas durante todo dia, ligados na tela da Tv, faz com que se julguem imperfeições ou defeitos que não são evidenciados tão facilmente no cotidiano.
Como exemplo pode-se citar alguns dilemas morais de determinada edição de um programa, os questionamentos a serem cogitados são diversos como: ela é legal mas teve uma colocação racista; ele é super lúcido, mas teve uma fala homofóbica; a fulana é uma das mais queridas, mas tem desapontado ao participar do isolamento do determinado competidor; fulano mostrou puro carisma em uma festa, mas assediou participantes em outra. E, dessa maneira, segue o julgamento imediato constante e baseado, por vezes, em erros isolados de conduta.
A cultura do cancelamento é utilizada para cobrar justiça de pessoas que possuem uma influência na sociedade. Alguns indivíduos em determinadas questões levam para um outro lado essa nova onda cultural, trazendo assim indagações sobre a real necessidade e eficiência. Já que por muitas vezes equivale apenas um apontamento de um erro e, mesmo se o erro for mínimo e a pessoa em questão se retrate, continua sendo cancelada. Surge, assim, o questionamento se essa cultura consiste em combater injustiças e fazer justiça, ou excluir as outras pessoas de sua vida ou ambiente podendo prejudicá-la de diversas formas.
A desculpa e o perdão não têm mais vez? A reflexão sobre o erro e a evolução do cidadão não contam mais? No mundo de hoje muitas vezes o modismo vem à tona e acaba afetando determinados processos de uma sociedade. Normalmente o cancelamento pode ser originado de um exposed, mas não é uma regra fixa.
Em uma pesquisa feita por esta reportagem a jovens entre 18 a 21 anos sobre qual é o limite tolerável, até o ato de cancelar, se obtiveram as seguintes respostas:
Samily Gnatta, estudante de publicidade da IBMR. " A partir do momento que fere uma cultura, uma comunidade, um pensamento ou até danos morais, é totalmente intolerável. O que é tolerável são pequenas discussões com assuntos que poderiam ser resolvidos antes do cancelamento imediato", opina.
Guilherme Morgado, estudante de publicidade da Estácio. "Acredito que não é tolerável infringir a liberdade de outras pessoas. Podemos fazer críticas e expor nossos gostos pessoais sem insultar as demais pessoas, sem ultrapassar os limites da nossa liberdade. Mas isso não justifica um ‘linchamento’ virtual, devemos tomar as medidas corretas de acordo com o que achamos certo, numa sociedade utópica o certo seria que essa pessoa aprendesse com seus erros e dependendo da gravidade deles ser julgada perante a lei", declara.
Fernando Pieroni, estudante de jornalismo da Universidade Veiga de Almeida. "Na minha concepção não é tolerável a partir dos momentos que atitudes ferem o direito e a moral do próximo. Mas ainda assim, por mais que se trate até mesmo de um crime, a pessoa em questão não deve ser simplesmente cancelada, esse tipo de julgamento sem direito a defesa é bem mais suscetível a injustiças. Algumas pautas que precisam realmente ter sua importância e estar em foco acabam recebendo menos atenção por essa polarização e automatização do julgamento", afirma.
Dessa forma, saber o que é tolerável para si, pode ser um jeito de tratar a situação. Casos como ameaças, xingamentos a familiares e agressões podem acarretar consequências jurídicas.
O que é o “exposed”?
Outro termo relevante nesse contexto é exposed, esse pode ser definido como relatos que expõem, ou buscam trazer à tona, crimes ou posturas de ofensivas, tanto de pessoas públicas quanto de indivíduos comuns.
Cabe ressaltar que, assim como o cancelamento, essa prática começou através de um objetivo principal que foi se modificando com o passar do tempo. A princípio, um exposed baseava-se em denunciar ocorrências que estavam sendo, de certa forma, deixadas de lado pela justiça e não tendo a devida e merecida visibilidade nos veículos de comunicação tradicionais. Através da inserção contínua de notícias que a internet trouxe, a sociedade, de forma majoritária, pôde notar alguns desses casos, popularizando-os, denunciando e, consequentemente, aumentando sua relevância para que desse modo as autoridades prosseguissem com os casos e ficassem mais alertas.
No entanto, esse tipo de relato vem se multiplicando e ganhando dimensões cada vez mais graves. Pois movida pela tal febre da cultura do cancelamento, passou-se a procurar por postagens, declarações e registros antigos com o objetivo de crucificar pessoas, seja algum outro erro recente simplesmente por puro “hate”. É uma linha tênue entre o acolhimento de vítimas e o linchamento virtual.
"Caso o cancelamento fosse com você, o que faria?”. A reportagem fez este questionamento para adultos entre 18 e 21 anos e obteve as seguintes respostas:
Maria Victória Lopes, estudante de letras, na Universidade Veiga de Almeida. "Se acontecesse comigo, tentaria saber primeiro o motivo e, caso tivesse feito algo que ofendesse alguém, reveria minhas ações, tentaria aprender o motivo pelo qual foi ofensivo, pediria desculpa e iria melhorar minha atitude", relata.
Fernando Pieroni, estudante de jornalismo, na Universidade Veiga de Almeida. "Eu agiria de acordo com a minha consciência, já que eu acho essa cultura precipitada. Mas sei que é muito perigoso também nesse sentido emocional, pode acabar com reputações e até mesmo com vidas de forma irresponsável, pois esse hábito incentiva que as pessoas adotem verdades absolutas, que são compartilhadas como se ‘fossemos’ donos da razão sem considerar outros pontos de vistas", opina.
Samily Gnatta, estudante de publicidade, na IBMR. "Tentaria argumentar sobre o que penso, e se eu de fato estivesse errada com os meus atos, tentaria revertê-los para gerar uma melhora na convivência com a sociedade em geral", afirma.
SLIDE EM VÍDEO sobre o que é a cultura do cancelamento
Mídias sociais e a cultura do cancelamento
Os cancelamentos acontecem, geralmente, através das redes sociais, como Facebook, Twitter e Instagram, e ocasionam reverberação em diferentes veículos de comunicação, digitais e tradicionais. Visto isso, vale citar o Youtube, que é, na verdade, uma mídia social muito usada como disseminador de informações, sendo uma ferramenta que as pessoas possuem o livre arbítrio de fazer seus vídeos falando sobre qualquer assunto. Neles muitas vezes retratam a vida dos famosos, tratando de assuntos de alguma polêmica que se envolveram ou até mesmo instigando as pessoas que o assistem a cancelar determinada figura pública por algo que ache errado.
O Twitter se tornou hoje em dia, quase que oficialmente, a rede social do cancelamento. As pessoas passaram a criar “threads”, sequências de posts, mostrando acontecimentos que julgam essenciais e que merecem um destaque e maior atenção, apoiados pelo ato de compartilhar e replicar o mesmo fato através de outros utilizadores do site.
Dentro desse cenário, é possível mencionar alguns casos recentes de exposed e cancelamentos, a exemplo dos seguintes:
Julio Cocielo, youtuber e comediante de 27 anos, que contempla em sua profissão 4 canais, sendo eles: Júlio Cocielo, Reversão, CanalCanalha e Taticielo, juntos esses canais possuem um público de mais de 30 milhões de pessoas. O mesmo tem sido acusado por racismo devido a uma postagem que fez na época da Copa do Mundo de 2018, na qual disse que o jogador da equipe francesa Kylian Mbappé “conseguiria fazer uns arrastão top na praia”.

Youtuber e humorista Júlio Cocielo. (Foto: Pedro Vale/Reprodução Instagram)
Após o comentário, parte da internet entendeu que a colocação aconteceu pelo fato de o atleta ser negro. As pessoas logo começaram a repercutir e buscar nas redes sociais de Cocielo por posts antigos que poderiam ser de tendência racista, iniciando o processo de cancelamento. Logo após grande repercussão, o youtuber fez um vídeo se retificando e "explicando" o que queria passar às pessoas. Disse que estava apenas se referindo à velocidade do atleta e não a sua cor, mesmo assim, em 2020 foi dado seguimento ao processo judicial e ele se encontra como réu pelo crime de racismo.
Como um caso mais recente, o youtuber PC Siqueira, 34 anos, que produzia vídeos para seu canal solo "maspoxavida" e para outro chamado de "Ilha de Barbados" na companhia de seus colegas de profissão Rafinha Bastos e Cauê Moura, tem sido acusado desde junho deste ano de receber fotos íntimas de uma menina de sete anos de idade, através de sua amiga que é mãe da criança. Ao compartilhar as fotos com um amigo, esse expôs o ocorrido no Twitter.

Youtuber PC Siqueira. (Foto: Reprodução/Instagram)
Através das trocas de mensagens, foi possível julgar que o youtuber tem interesse nesse tipo de conteúdo. Presumindo o cancelamento e revolta que consequentemente iria receber pelos seus atos, PC Siqueira privou suas contas nas redes sociais e desativou seu canal no YouTube. Diante disso, os sócios do canal conjunto se posicionaram ao público, dizendo repudiar práticas do tipo e desativando os vídeos do mesmo. PC tentou contraprovas, alegando ser vítima de fake news, mas diante de todos os fatores contra ele, resolveu, aparentemente, não mais se posicionar publicamente, fazendo posts misteriosos e preocupantes em relação a sua vida. A polícia segue investigando este caso.
Houve também, no dia 2 de julho de 2020, um caso em que o cancelamento fez uma vítima fatal. Foi o streamer Reckful (Byron Daniel Bernstein), 31 anos, que, naquele dia, cometeu suicido. O caso aconteceu após o streamer publicar um pedido de casamento para sua namorada no Twitter, e vários usuários o criticarem dizendo que a estava pressionando e que ela não aceitaria. Reckful, que já tinha depressão, teve uma crise ao perceber tal cancelamento, e acabou, horas depois, tirando a própria vida. Milhares de jogadores e internautas o homenagearam e criticaram a atitude sem razão feita contra ele e a sua declaração nas redes sociais.

Streamer Bryon Daniel. (Foto: twitter/@Byron)
Por: Iago Bastos, Cleyson Marinho, Bruna Costa, Aline Izabele, e Karoline Ribeiro




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