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A era da Pós-Verdade

  • Grupo 5
  • 14 de nov. de 2020
  • 5 min de leitura

Fenômeno é um dos responsáveis pela manipulação das informações e das crenças da sociedade atual



Em 2016 o dicionário Oxford elegeu "Pós-Verdade" como a palavra do ano. Após a eleição de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos, o referendo do Brexit e a ascensão de governos de extrema direita, utilizando a disseminação de desinformação nas redes sociais, o termo está cada vez mais em evidência e gerando debates sobre como as pessoas se relacionam com a imprensa e a informação.

A instituição inglesa definiu o termo como “relativo a ou que denota circunstâncias nas quais fatos objetivos são menos influenciadores na formação da opinião pública do que apelos à emoção ou à crença pessoal”. Estudo feitos pela publicação inglesa revelaram um aumento a partir de 2016 da utilização e da busca da palavra.

O professor de história e sociologia Luiz Cláudio Vianna explica que apesar desse fenômeno ter chamado atenção recentemente, a sua origem vem desde a primeira metade do século 20. Segundo ele, o autoritarismo, a intolerância, crueldade e as guerra contribuíram para que as pessoas começassem a não acreditar no que estava dando errado. “A Pós-Verdade, de certa forma, foi um reencantamento do mundo: a descrença nas verdades que existiam sem que nada concreto as substituísse. Sem o esteio das antigas verdades, houve uma volta a um tipo de pietismo luterano. Uma crença em si, que parte de dentro do indivíduo, das suas experiências pessoais, e não de informações exteriores”, diz.

Luiz Cláudio Vianna acrescenta que o advento da internet e o grande fluxo de informações contribuíram ainda mais para o fortalecimento desse processo que a sociedade estava passando. A mudança na lógica do consumo de mídia trouxe um fluxo quase infinito de informações para as pessoas. “Se antes a rádio, TV, jornais e revistas eram fundadas em um padrão um-todos, as novas tecnologias da informação oriundas da informatização, geraram um padrão todos-todos. O que seguia um modelo unilateral de informação, com a mídia produzindo e distribuindo, se torna um modelo interativo, em que todos podem produzir e compartilhar informações entre todos os outros. Provavelmente um youtuber de 20 anos em 2020 pode possuir mais abrangência que o maior dos jornais impressos nos anos 1980”, afirma.

Dentro desse contexto de múltiplas fontes e canais de comunicação a geração de desinformação se tornou bastante comum. Sergio Oliveira, professor de atualidades e ciências humanas compartilha, em entrevista concedida à reportagem, um pouco da sua visão sobre a Pós-Verdade e suas várias formas de manifestação. Ele acredita que a sociedade vive um momento de questionamento da ciência. “A Pós-verdade seria a sobreposição da crença ao fato Científico. É o empírico sobre o método”, explica.

Nesse trecho ele explica a diferença entre Pós-Verdade e Fake News. Dois termos bastante utilizados e que, muitas vezes, acabam sendo confundidos por parte da população.



Segundo dados de uma pesquisa realizada pelo Datafolha, em outubro de 2018, o Whatsapp era o meio mais utilizado para compartilhar informações sobre política e eleições. Entre o público mais jovem de 16 a 24 anos, e de 25 a 34 anos, 46% utilizavam o aplicativo para ler notícias. De acordo com o levantamento, 52% dos eleitores de Jair Bolsonaro acreditavam no conteúdo que recebiam por meio de mensagens, contra 44% dos que votaram em Haddad.

A Pós-Verdade compromete o diálogo e o debate crítico. O professor e sociólogo Luiz Alberto Casemiro acredita que a manipulação das informações pode ter consequências muito graves, indo além de uma discussão polarizada nas redes, afetando diretamente a democracia brasileira. “A polarização tem sido muito utilizada como estratégia política, servindo de base para líderes políticos autoritários promoverem a corrosão da dinâmica democrática por dentro, mantendo a fachada de democracia com divisão de poderes”, declara.

Ele ressalta que existe uma dificuldade em lidar com a Pós-Verdade, uma vez que, envolve uma diversidade de notícias e a uma individualização das pessoas. “O medo e a desconfiança, junto com a falta de discernimento, formam a base da Pós-Verdade. Mesmo com a apuração de fatos, a crença do indivíduo em suas próprias opiniões é mais valiosa”, conta.


Entrevista em áudio com Luiz Alberto Casemiro:

Diante de tantas notícias e do constante questionamento da imprensa, se faz necessário um processo de educação midiática. Para a presidente-executiva do Instituto Palavra Aberta, Patricia Blanco, é preciso preparar crianças e jovens para desenvolver senso crítico sobre as informações. Nesse sentido, a organização criou o programa EducaMídia, que capacita professores e organizações de ensino, além de engajar a sociedade, desenvolvendo seus potenciais de comunicação em diferentes plataformas.

Confira abaixo a entrevista realizada por e-mail com Patricia Blanco:

Qual o papel da educação midiática para evitar a propagação de notícias falsas?

Vejo a educação midiática como fundamental para os nossos tempos e principalmente neste momento de crise informacional em que vivemos. Todo eixo “LER” das habilidades da educação midiática, ou seja, análise e leitura crítica da informação pressupõe o desenvolvimento de competências para questionar fontes de dados, suspeitar da procedência de uma informação, manusear os diferentes gêneros textuais e dominar o conceito de credibilidade, entre outras habilidades que transformam o ato de ler/consumir informação em algo que exige interpretação, criticidade, autonomia e até uma pitada de investigação.

A educação midiática, a partir dos eixos “ESCREVER” e “PARTICIPAR”, também auxilia a formar cidadãos mais conscientes do seu papel na sociedade e a dominar as novas ferramentas e linguagens que ajudam na auto expressão, na fluência digital, na comunicação não violenta, na não propagação de discurso de ódio e na não disseminação de conteúdo falso.

Como a Pós-Verdade e as Fake News estão afetando a noção do que é verdade ?

A sociedade ganha quando o acesso a informações confiáveis ajuda a população a tomar decisões mais conscientes. A sociedade se beneficia quando a comunicação é responsável e aberta ao debate respeitoso de ideias. A sociedade progride quando há liberdade de imprensa e o jornalismo pode contar os fatos que ajudam a reforçar a democracia.

O ambiente de desordem informacional tem o objetivo de desestabilizar esse ciclo citado acima, pois a desinformação – Pós-Verdade, Fake News, teorias de conspiração, entre outros exemplos - afeta a confiança de um modo geral, o que prejudica a construção de consensos e a noção de verdade baseada em fatos e dados, colocando em cheque todo o conhecimento adquirido, o que tem impactado fortemente o processo democrático e de construção do conhecimento.


Como as pessoas podem identificar se uma informação que está na internet é verdadeira ou não?

Uma das formas mais eficazes de identificar uma informação, esteja ela onde ou no formato em que estiver, é praticando o que chamamos de “ceticismo saudável”, ou seja, questionando a informação e buscando entender o contexto em que ela é apresentada. Em termos práticos, vale seguir os quatro passos para checagem de qualquer informação:

Pause - Olhe um pouco para essa mensagem.

Investigue a fonte - O que você sabe sobre quem escreveu ou publicou? (lembrar que fonte não é quem enviou a informação)

Busque informações mais completas - Onde mais essa informação pode ser encontrada?

Conheça o contexto - Qual é a história completa?


Para um detalhamento adicional, segue um roteiro de perguntas baseadas em 6 dicas para escapar da desinformação (E.S.C.A.P.E. Junk News desenvolvido por NewseumEd):


EVIDÊNCIAS

Os fatos se sustentam? Procure informações que possam ser verificadas: nomes, números, lugares, documentos.

FONTE

Quem criou isso, e posso confiar nesta fonte? - Considere todos os envolvidos na publicação e divulgação: quem escreveu, quem publicou, quem financiou, agregadores de conteúdo, usuários das mídias sociais.

CONTEXTO

Qual é a história maior? Avalie se isto é toda a história ou parte dela, e considere as outras forças em jogo: eventos da atualidade, tendências culturais, objetivos políticos, interesses financeiros.

AUDIÊNCIA

Para quem isto foi criado? Identifique tentativas de cativar um determinado tipo de pessoa, através de escolha de imagens, técnicas de apresentação, linguagem ou conteúdo.

PROPÓSITO

Por que isto foi criado? Procure pistas sobre a motivação: a missão do editor, linguagem ou imagens persuasivas, táticas de monetização, agendas explícitas ou implícitas, chamados à ação.

EXECUÇÃO

Como esta informação está sendo apresentada? Observe como a forma de apresentação afeta o impacto da mensagem: estilo, gramática, tom de voz, escolha de imagens, diagramação e elementos gráficos.



Por: Lucas Mororo de Souza, Giovanna Ferreira Mattos, Ana Júlia Queiroz e Lucas da Rocha Pereira

 
 
 

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